Citações breves sobre diversas enfermidades - Parte 3



Eugênio Goulart
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

No livro “Sagarana”, no conto “São Marcos”, a palavra “hirsuto”, que significa pelos abundantes, deixa de designar apenas seres humanos para ser usada na descrição de uma folha: O meu caminho desce, contornando as moitas de assa-peixe e do unha-de-boi esplêndido, com flores de imensas pétalas brancas, e folhas hirsutas, refulgindo.

No “Grande Sertão: Veredas”, o jagunço Treciziano, desafeto de Riobaldo, que teve de matá-lo para não morrer, era “fraco das paciências”, “padecia de erupções e dartros”, e era “homem zuretado”.

Erupções cutâneas generalizadas são manifestações frequentes nos casos de dermatites alérgicas. “Dartro” é uma palavra de origem francesa (dartre), que significa mancha efêmera. É usada em medicina para identificar máculas hipocrômicas de fundo alérgico, que geralmente aparecem no rosto e nos membros superiores, que recebem o diagnóstico de dartro volante ou pitiríase alba. E “zuretado” é um nome popular para um indivíduo meio amalucado:

Ali esse Treciziano era fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os outros - segundo esse tremor das ventas - e pegou a malucar? Diziam que ele criava dor-de-cabeça, e padecia de erupções e dartros. Ele estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa. Homem zuretado, esbraseia os olhos.

Mais palavras técnicas da área médica, como “consumpção” e “marasmo” são utilizadas no conto “Páramo”, do livro “Estas Estórias”: E esse ia ser um tempo de deperecimento e consumpção, de marasmo. São empregadas no sentido de prostração, lassidão e imobilidade, que o autor sentiu antes de se adaptar às grandes altitudes nos Andes colombianos.

Um indivíduo tolo, ou mesmo idiota, recebe a denominação de “pancrácio” no Sagarana, no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”: Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio.

Com o mesmo sentido é empregada a palavra “prascóvio” na primeira página do “Grande Sertão: Veredas”: Povo prascóvio. E também Riobaldo, mais adiante, a utiliza para se referir a um jagunço abobalhado: Que era que eu ia fazer, às fugas com aquele prascóvio, pelo sul e pelo norte, nos sertões da Jaíba? A palavra “sandeu”, que vem de sandice, é utilizada também com a conotação de palerma: Mas o Placidino, que o estivera olhando, mais que nunca boquiaberto e sandeu, fugia de questão [...].

Outra palavra do vocabulário médico, atualmente pouco utilizada, é “tartamudo”, que significa gago. Aparece no livro “Sagarana”, no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”:

[...] interpelou-o o Zeferino, que multiplicava as sílabas, com esforço, e, como tartamudo teimoso, jogava, a cada sílaba, a cabeça para trás. Também no conto “Palhaço da boca verde”, do livro “Tutaméia”, a palavra “tartamudo” é empregada novamente em outro personagem.

No poema “Roxo”, do livro “Magma”, a palavra “equimose” é usada para descrever a cor das fitas púrpuras colocadas nas coroas de flores que homenageiam um defunto: Passou pelas olheiras fundas, pousou nos ramalhetes de saudades, tocou nas fintas das coroas, longas como equimoses...

No mesmo livro, no poema “Vermelho”, ao descrever uma pomba, usa as palavras “artéria” e “palpitação”: De debaixo das plumas, vem o jorro enérgico, da foz de uma artéria: e a mancha transborda, chovendo salpicos, a cada palpitação.

Mais de uma vez é empregada a palavra “zigoma”, em uma referência ao osso malar, como no conto “Os chapéus transeuntes”, do livro “Estas Estórias”: Assomava dum claro-escuro a cara e cabeça, com muitos ossos - muito queixo, muito de crânio, muito de testa e arcadas sobre os olhos, muitos zigomas - muita caveira. E no conto “Cipango”, do livro póstumo “Ave, Palavra”, ao se referir aos imigrantes japoneses: [...] indescoráveis amarelos, cabelos ouriçados, caras zigomáticas, virgulados olhos obvexos.

“Fácies” é um termo da semiologia médica que significa o aspecto geral de um paciente, ou de qualquer ser vivo. É citado no livro “Primeiras Estórias”, no conto “O espelho”: Parecer-se cada um de nós com determinado bicho, relembrar seu fácies, é fato.

No conto “Darandina”, do mesmo livro, também aparece “fácies”, no comentário de um estagiário de Medicina sobre um indivíduo que estaria louco: Aspecto e fácies nada anormais. E ainda, em mais uma citação, agora para animais, a palavra é empregada na descrição da cascavel no conto “Bicho Mau”, do livro “Estas Estórias”: Tanto, que está quieta. Mas, se olhada muito, parece retroceder, vai recuando, fugindo, em duração e extensão, se a gente não resistir adianta-se para o trágico fácies.

Detalhes do aspecto de animais, fazendo-se comparações anatômicas, são empregados na descrição de um polvo. Os termos “esfincteriano” e “traqueia”, presentes no conto “Aquário”, do livro “Ave, Palavra”, são palavras típicas do linguajar médico: Saindo de um saco, que pulsa igual, abre-se e reclui-se, esfincteriana, a boca: tubo amputado, coto de traquéia de um degolado. Assim como no conto “Zôo”, do mesmo livro, Guimarães Rosa usa a comparação de máculas acrômicas com o vitiligo, ao descrever as focas: Sarapintam-se de vitiligo ou de sinais de queimaduras.

No conto “Sanga Puytã”, que é o nome de uma cidadezinha paraguaia, texto que faz parte do livro “Ave, Palavra”, Rosa usa a palavra “osmose”, no sentido de contato, proximidade com uma região e com um povo indígena. Tecnicamente, osmose é o nome dado ao movimento da água entre meios com concentrações diferentes de solutos separados por uma membrana semipermeável. O conto descreve a viagem que fez ao Pantanal mato-grossense, em 1947, e suas impressões iniciais sobre a fronteira do Brasil com o Paraguai: Distamos ainda, verdade, da zona de osmose, onde nos falará uma língua bizarra com vogais tecladas [...].

“Letargo” é usado fora do contexto humano, como se a natureza estivesse em sonolência. A comparação aparece no livro “Noites do Sertão”, no conto “Buriti”: O Brejão engana com seu letargo.

NÃO PERCA, na próxima edição, a quarta parte do capítulo “Citações breves sobre diversas enfermidades”.


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