O estranho no ninho

Carta do Editor
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

Quando Eike Batista e sua MMX chegaram a Conceição do Mato Dentro, no interior de Minas, para implantar o Minas-Rio – hoje, o segundo maior projeto de mineração no país, comprado e tocado pela Anglo American –, eles cometeram um pecado mortal de ecologia humana: não ouvir as pessoas, os cidadãos que nasceram e moram no lugar. Resultado: perderam uma grande chance de se comunicar com eles. Preferiram, de troco, a natural rejeição da população local, em vez de aprender com os Josés e Marias de uma memória e sabedoria sem fim.

É mais ou menos isso que segue acontecendo com o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Estranho no ninho, em vez de chamar os ambientalistas (que não mordem) para conversar, receber pessoalmente os 27 superintendentes regionais do Ibama – saber de suas vitórias, dificuldades e desafios, de suas singularidades e experiências no cargo –, Salles fez o contrário.

Sem esclarecer os motivos, exonerou 21 deles, sem um mínimo de respeito e consideração com a história de casa um. Preferiu a ignorância. E não a sabedoria acumulada que eles tinham para lhe passar. É o mesmo que acontece e sempre aconteceu com a maioria dos velhos políticos e administradores públicos em cargos de confiança na história brasileira: a cegueira de acharem que a história começa e termina com eles. E com isso, levam dois anos destruindo o que encontram pela frente, toda a memória e projetos de seus antecessores. E os outros dois anos, se preparando para sair e serem substituídos por outros que, descontinuamente, farão o mesmo:

Mais sábia que os humanos, a história resiliente da natureza confirma uma lógica inversa. A natureza é sempre contínua, uma somação, como tudo na vida. Justamente o que o novo ministro, dizendo-se autorizado por Jair Bolsonaro, continua negando por meio de suas atitudes bélicas e frases de efeito nada associativas, nem ecológicas.

Nos bastidores, o que se fala é isso mesmo. Que, por meio do ruralista confesso Salles, o presidente está simplesmente cumprindo o que prometeu na campanha e confirmou nas urnas: acabar com o Ministério do Meio Ambiente e a indústria de multas do Ibama, já que, diante da opinião pública, não conseguiu anexá-los subservientes ao Ministério da Agricultura.

O que o novo ministro pensa, enfim, sobre a questão ambiental? Sobre a sustentabilidade, a bandeira apartidária que mais deveria ser empunhada pelos políticos e estadistas do planeta? E pode significar a salvação da humanidade junto do planeta, incluindo ele mesmo, mais o presidente e todos os ruralistas que hoje nos governam, com tanto desprezo à natureza que igualmente nos protege?

É o que o que você pode conferir nesta edição.

Boa leitura!

Até a lua cheia de abril.

o amor ao ninho

Simples e emotiva, tal como a natureza que ele amava. Foi assim, no último domingo de março, na Paróquia Santa Rita de Cássia, em BH, a missa realizada pelo padre Toninho em lembrança ao centenário de nascimento do ambientalista Hugo Werneck. Um dos precursores da consciência ecológica na América Latina, é a ele que a Revista Ecológico é dedicada a cada nova lua cheia no céu.

Considerado um dos pais do ambientalismo brasileiro, ele foi o fundador do Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, uma das primeiras ONGs do país, cuja sede fixa era o seu concorrido gabinete de dentista no centro de BH. E como sede móvel, uma velha kombi que o levava a procurar passarinhos e se encantar com as borboletas pelos Geraes afora retratadas por Guimarães Rosa. Graças à sua luta, acham-se hoje preservados tanto o Parque Estadual do Rio Doce, no Vale do Aço, considerado a “Amazônia mineira”; quanto o Parque Nacional da Serra do Cipó, entre tantas áreas verdes.

Além da Revista Ecológico, o “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, hoje na sua 10a edição, foi criado para manter viva a sua memória. O ambientalista nasceu no dia 30 de março de 1919 e nos deixou em novembro de 2008, aos 89 anos. Ele acreditava que só o amor, a educação e a democratização da informação ambiental poderiam mudar a atitude do ser humano em relação à natureza. Foi essa a sua mensagem, na forma de um “santinho” com sua foto, que seus familiares distribuíram ao final da cerimônia religiosa, devoto e ajudante da paróquia que ele era. De um lado, a justificativa sutil e maior de sua luta: “Só a beleza do mundo deveria bastar para preservarmos a natureza”. E de outro, a mais colorida: “Imagine se matássemos ou aprisionássemos todas as larvas de borboletas, por serem feias e nocivas nesse estágio? Não existiram borboletas adultas, esvoaçantes em sua beleza, leveza e graça. Não existiram ‘cores que voam’ a nos encantar, como uma criança um dia me ensinou a vê-las”.

Obrigado, mestre!

Em tempo: para rever alguns dos seus ensinamentos, ao som de “Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas!


Postar comentário