O recado hídrico de Nairóbi



Dia Mundial da Água
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

O mundo preparou o terreno para uma mudança radical por um futuro mais sustentável, em que a inovação pode ser fomentada para enfrentar os desafios ambientais, o uso de plásticos descartáveis será significativamente reduzido e o desenvolvimento não irá mais custar tanto para o planeta.

Após cinco dias de conversas na Quarta Assembleia Ambiental das Nações Unidas, em Nairóbi, os ministros de mais de 170 países membros das Nações Unidas entregaram um plano audacioso por mudança. Comunicaram que o mundo precisa acelerar os movimentos para um novo modelo de desenvolvimento a fim de respeitar a visão estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030.

Preocupados pelas crescentes evidências de que o planeta está cada vez mais poluído, rapidamente se aquecendo e perigosamente esgotado, os ministros prometeram atender os desafios ambientais por meio do avanço de soluções inovadoras e da adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo.

“Reafirmamos que a erradicação da pobreza, mudando aquilo que é insustentável, promovendo padrões sustentáveis de consumo e produção e protegendo a gestão dos recursos naturais, que são base para o desenvolvimento social e econômico, são os objetivos fundamentais e as exigências essenciais para o desenvolvimento sustentável”, afirmaram eles em sua declaração final.

“Iremos melhorar as estratégias de gestão de recursos naturais integrando perspectivas que englobem o ciclo completo da vida e análises que concretizem economias de baixo carbono e eficientes em relação aos seus recursos.”

Mais de 4.700 delegados, incluindo ministros do meio ambiente, cientistas, acadêmicos, líderes empresariais e representantes da sociedade civil estavam presentes na Assembleia. Eles são o corpo mais importante de meio ambiente em nível global, cuja decisão irá definir a agenda das nações, antevendo a Cúpula de Ação Climática da ONU, em setembro próximo.

O evento também resultou no comprometimento dos ministros em promover sistemas de alimentação encorajando práticas de agricultura resilientes, enfrentar a pobreza por meio da gestão sustentável de recursos naturais, promover o uso e compartilhamento de dados ambientais, e reduzir sensivelmente o uso de plásticos descartáveis.

“Nós vamos endereçar o dano causado a nossos ecossistemas pelo uso insustentável de produtos plásticos, promovendo a redução significativa de descartáveis desse tipo de material até 2030, e iremos trabalhar com o setor privado para encontrar produtos ambientalmente amigáveis e financeiramente acessíveis”, disseram.

O momento é de ação

“O mundo está em uma encruzilhada, mas hoje escolhemos o caminho que iremos seguir” disse Siim Kiisler, presidente da Quarta Assembleia Ambiental da ONU e Ministro do Meio Ambiente da Estônia. “Decidimos fazer as coisas diferentemente. Desde reduzir nossa dependência dos plásticos de uso único a colocar a sustentabilidade no seio de todos os desenvolvimentos futuros, transformaremos a maneira que vivemos. Temos as soluções inovadoras que precisamos. Agora temos que adotar políticas que nos permitam suas implementações.”

Ao final da Assembleia, os delegados adotaram uma série de resoluções não vinculantes, rumo à mudança para um modelo de desenvolvimento diferente. Entre elas, foi reconhecido que uma economia global mais circular, em que os bens podem ser reutilizados ou reaproveitados e mantidos em circulação pelo maior tempo possível, pode contribuir significativamente para o consumo e a produção sustentáveis.

Outras resoluções indicam que os estados-membros poderiam transformar suas economias por meio de compras públicas sustentáveis e apoiar medidas para lidar com o desperdício de alimentos e para desenvolver e compartilhar as melhores práticas nas áreas de eficiência energética e de segurança para a cadeia de frio.

As resoluções também abordaram o uso de incentivos, incluindo medidas financeiras, para promover o consumo sustentável e acabar com incentivos para consumo e produção insustentáveis, quando apropriado.

“Nosso planeta atingiu seus limites e precisamos agir agora. Estamos muito satisfeitos que o mundo tenha respondido, em Nairóbi, com compromissos firmes para construir um futuro em que a sustentabilidade seja o objetivo final em tudo o que fizermos”, afirmou Joyce Msuya, diretora-executiva Interina da ONU Meio Ambiente.

“Se os países cumprirem tudo o que foi acordado aqui e implementar as resoluções acordadas, poderemos dar um grande passo em direção a uma nova ordem mundial. Nós não cresceremos mais às custas da natureza, mas veremos as pessoas e o planeta prosperarem juntos.”

Proteção marinha

Um dos principais focos da Assembleia foi a necessidade de proteger oceanos e ecossistemas frágeis. Os ministros adotaram uma série de resoluções sobre lixo marinho plástico e microplásticos, incluindo o compromisso de estabelecer uma plataforma multissetorial dentro da ONU Meio Ambiente para tomar medidas imediatas para a eliminação a longo prazo de lixo e microplásticos.

Durante a cúpula, Antígua e Barbuda, Paraguai e Trinidad e Tobago aderiram à campanha “Mares Limpos” da ONU Meio Ambiente, elevando para 60 o número de países adeptos da maior aliança mundial de combate à poluição marinha por plásticos, incluindo 20 da América Latina e do Caribe.

Desafios ambientais

A necessidade de agir rapidamente para enfrentar os desafios ambientais existenciais foi ressaltada pela publicação de diversos relatórios durante a Assembleia.

Entre as mais devastadoras, está uma atualização sobre a mudança do Ártico, que explica que mesmo que o mundo cortasse as emissões em consonância com o Acordo de Paris, as temperaturas do inverno no Ártico subiriam entre 3 a 5°C em 2050 e 5 a 9°C até 2080, devastando a região e desencadeando o aumento do nível do mar em todo o mundo.

O relatório “Ligações Globais - Um olhar gráfico sobre a mudança do Ártico” alertou que o rápido derretimento do permafrost poderia acelerar ainda mais a mudança climática e inviabilizar os esforços para cumprir o objetivo de longo prazo do Acordo de Paris: limitar o aumento da temperatura global a 2°C.

Enquanto isso, o sexto “Panorama Global Ambiental”, visto como a avaliação mais abrangente e rigorosa do estado do planeta, alertou que milhões de pessoas poderão morrer prematuramente devido à poluição da água e do ar até 2050, a menos que medidas urgentes sejam tomadas.

O estudo destaca que os poluentes em nossos sistemas de água potável farão com que a resistência antimicrobiana se torne a maior causa de mortes até 2050 e com que disruptores endócrinos afetem a fertilidade masculina e feminina, bem como o desenvolvimento neurológico infantil.

Produzido por 250 cientistas e especialistas de mais de 70 países, o relatório mostra que o mundo tem a ciência, tecnologia e finanças necessárias para avançar em direção a um caminho de desenvolvimento mais sustentável, mas políticos, empresários e o público devem apoiar e incentivar essa mudança.

Saiba mais

Segundo o "Relatório sobre o Desenvolvimento hídrico no mundo de 2019" da ONU, 2,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável. E, acredite, 4,5 bilhões não têm instalações sanitárias gerenciadas com segurança.

Estima-se que 1,4 milhão de pessoas (a maioria crianças) morrem anualmente em todo o mundo devido a doenças contraídas de água contaminada.

Mais da metade das pessoas que bebem de fontes não seguras vivem na África Subsaariana, onde apenas 24% têm acesso a água limpa e 28% a saneamento que não é partilhado com outras famílias. Três quartos dos habitantes dos países dessa região procuram água com muita dificuldade, uma tarefa que cabe principalmente às mulheres, que levam em média mais de 30 minutos em cada viagem para ter acesso ao recurso natural.

A situação dos refugiados e das pessoas deslocadas internamente nos próprios países é dramática, uma vez que enfrentam frequentemente sérios obstáculos na obtenção de água e na utilização dos serviços de saneamento. Quase 70 milhões de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas em 2017. Em média, mais de 25 milhões de pessoas migram todos os anos em consequência de catástrofes naturais, duas vezes mais do que no início da década de 1970, um número que se receia aumentar devido às mudanças climáticas em andamento.

Embora a procura pela água tenha aumentado 1% por ano desde 1980, as guerras pela água também aumentaram: 94 de 2000 a 2009 e 263 de 2010 a 2018. Os conflitos para obter fontes de água triplicaram de uma década para outra.

O relatório mostra que os investimentos no abastecimento de água e no saneamento têm um excelente retorno económico; estima-se que o retorno global seja o dobro para os investimentos na água potável e mais de cinco vezes para o saneamento.


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