Rejeitos da salvação

Três anos depois da dura lição para a Samarco, na tragédia de Mariana, o Governo de Minas, por meio da Semad, Feam e Sindiextra, conclui o terceiro seminário do ano sobre o reaproveitamento sustentável de rejeitos de mineração

Mineração
Edição 114 - Publicado em: 19/12/2018

Se para a opinião pública o acontecido com a barragem de rejeitos de Fundão, em 05 de novembro de 2015, continua sendo visto como uma tragédia ainda não refeita, para o setor técnico da mineração, o olhar é outro. É enxergar, retirar e reutilizar os rejeitos minerais, desafogando assim as barragens, como soluções de subprodutos sustentáveis para outros setores da construção civil. Por exemplo, na construção de imóveis e fabricação de pisos e pavimentação de estradas.

“O que é rejeito para nós pode ser matéria-prima bem-vinda para outros setores da engenharia e economia do país.” Foi o que ressaltou o presidente do Sindiextra, José Fernando Coura, na abertura do “Seminário sobre Reaproveitamento de Rejeitos da Mineração e Economia Circular”, realizado no início do mês, no auditório do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, na capital mineira.

Segundo ele, o retorno das atividades da Samarco, em Mariana, só ainda não aconteceu por falta dessa visão simples e pragmática: “O acidente do Airbus 3054 da TAM, em julho de 2007, no Aeroporto de Congonhas, que vitimou 199 vidas humanas, mesmo considerado a maior tragédia da aviação brasileira, não proibiu a empresa aérea de continuar suas atividades”.

Pelo contrário, exemplificou Coura, “a fez evoluir em seus estudos, procedimentos e busca de novas tecnologias, de modo que dificilmente, com esses conhecimentos adquiridos, acidentes como aquele voltem a ocorrer.”

“Esse acidente trouxe otimização para as aparelhagens e melhorias de qualidade para os pilotos. É isso que queremos e podemos fazer, de maneira sustentável, com as nossas barragens. Dar um destino ambientalmente correto para os nossos rejeitos, que são 100% reaproveitáveis, como base, por exemplo, na construção e pavimentação de estradas.”

Foto: Flávio Passos
Foto: Flávio Passos

Finos de esperança

E concluiu o presidente do Sindiextra, voltando ao assunto de Mariana, considerado pela maioria de seus pares um marco de como evitar, evoluir e reaproveitar a utilização sustentável dos rejeitos no futuro. Inclusive, para alguns deles, os chamados “finos de minério”, já existem novas tecnologias de exploração.

“Temos de deixar de ser vítimas para sermos sujeitos da realidade. Não existe nada pior para a natureza que uma mina ou um avião abandonados no meio ambiente. Assim, não permitir a volta sustentável da Samarco prejudica a todos, sem exceção. É o máximo da imbecilidade. O que ocorreu ali foi um grave acidente de engenharia com consequência socioambiental também gravíssima. A sua solução, em curso, passa também pela engenharia. Primeiro, pelo erro. Segundo, pelo aprendizado. E terceiro, pela evolução, seja de operação ou de gestão, que podemos fazer agora. Proibir a Samarco de voltar a operar e, assim, fazer caixa para ela cumprir suas penalidades pelo que causou, é o mesmo que proibir qualquer empresa aérea de voar após um acidente como aconteceu com a TAM”, exemplificou Coura.

Da Holanda à China, um jeito aos rejeitos

Durante dois dias, os especialistas do setor debateram temas sobre a mineração sustentável. Diversos painéis e palestras abordaram “Políticas públicas”, “Desaguamento de rejeitos”, “Economia circular na Indústria e Mineração”, incluindo “Reaproveitamento de Rejeitos na Construção Civil”.

Segundo o secretário Germano Vieira, titular da Semad, a iniciativa conjunta de promover o seminário corrobora com o dever do poder público de fomentar alternativas à disposição dos rejeitos em infraestruturas de barragens, como preconiza a Lei 21.972/2016.

Isso explica a ampla participação não apenas do Ministério de Minas e Energia e da Agência Nacional de Mineração, mas também do setor produtivo (Fiemg), da construção civil (Crea e Sinduscon) e da comunidade acadêmica.

O seminário anterior, sobre o mesmo tema e atores, promovido em maio deste ano, foi fruto da visita de uma comitiva do Sisema à China. Na ocasião, o secretário e sua equipe puderem conhecer técnicas avançadas para reaproveitamento dos rejeitos de mineração implementadas pelo país asiático, que tem alta produção desse tipo de material.

Em outra iniciativa, o secretário e técnicos da Feam também estiveram na Holanda, no final de 2017. Todo o conhecimento adquirido durante a visita foi compartilhado em Minas durante a realização do “I Seminário Internacional de Tecnologia e Gestão de Barragens”, em maio deste ano. O evento contou, na época, com a participação de especialistas e órgãos ambientais da Holanda, Portugal e do Chile. E o conceito percebido foi o mesmo defendido agora por Germano Vieira: “Temos de mudar o conceito atual que trata os rejeitos da mineração como algo sem valor e tratá-lo como um produto com status econômico, cobiçado por outros setores da economia”.

Gestão de barragens

Diretor de Resíduos da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), Renato Brandão destacou o trabalho que a entidade faz, desde 2002, na gestão das barragens do Estado: “Elas são classificadas como de alto, médio ou baixo potencial de dano ambiental; e os empreendimentos têm de realizar auditorias periódicas em seus reservatórios. Em 2017, nós concluímos fiscalizações em 275 barragens. E, em 2018, em 311 delas”.

Os dados do “Inventário de Resíduos da Mineração” apontam cerca de 289 milhões de toneladas de resíduos gerados, dos quais 95,58% são destinados para as barragens e 2,87% para as pilhas de rejeitos. Somente 0,003%, cerca de 9,9 mil toneladas, é reutilizado.


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