Caapeba

O poder de cura natural do mal-estar

Marcos Guião - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

O proseio de seu Geraldo Mangarito, lá da comunidade de Cabassaco, era ponteado de espantos e reparos. Com a cabeça recoberta de uma penugem alvinha, seus olhos amendoados ficavam boiando nas águas de suas lembranças. Os braços compridos faziam desenhos no ar enquanto brotava em rompantes seu dizer que medrava de um tempo que há muito se esfumaçara naqueles fundos do sertão. Ali ao lado dele, eu tomava nota de seu dizer.

- Aqui é um lugarzinho bão, inté fresco no comparado com o entorno, mermo com esse nome esquisitado de Cabassaco. Nóis aqui sempre teve o custume da coleta das fruta do Cerrado. É pequi, mangaba, buriti, panã, cajuí, tudo que é fruto nativo do campo. Nunca teve dinheiro enredando essas coletas, era um trato de respeito com o lugar e as famílias dos vizinhos, mesmo se a coleta era pra venda na feira dispois. Essa tradição vem se sumindo porque o povo de hoje num tem mais respeito com o lugar, larga as porteira aberta, corta os arame, larga tudo distrapaiado. A família muita das vez fica na fúria num é porque colheu os frutos, mas pela falta de zelo com a propriedade alheia. Os tempos tão mudano, mas nos antigamente todo mundo entrava nas terras de todos pra colher o que quisesse...

Com as mãos firmes e rijas de quem já manejou por demais um cabo de enxada, ele sai da rede buscando um café na cozinha. Foi quando adentrou Pedro Otoni com seu chapéu de feltro ensebado, as calça frouxa, barba por fazer e olhar esgaziado. Depois do ritual das perguntas pelos familiares e cumprimentos, ele logo deu o ponto de sua visita. O caso era um mal-estar de arroto azedado, num importando a qualidade da comida. Aquilo vinha lhe molestando há tempos e tava aí o motivo da visitação.

Seu Geraldo coçou a cabeça num gestual bem seu e soltou a receita:

- Pois você se vá daqui e naquele premero revorteio da estrada, ali em frentemente ao pequizeiro mais graúdo, brota uma aguinha e tem um capão de mato naquele frescor. Lá tem uma folhona arredondada de cheiro inté bão, que sai duns talos cheios de nós. Aquilo é a caapeba (Pothomorphe umbellata), que uns povo tamém trata de pariparoba. Num tem remédio mió! Faça o chá na constança de 10 dias que o resultado aponta.

Pedro agradeceu por demais e partiu pra fazer sua parte do tratamento. Seu Geraldo me olhou diretamente nos olhos e ainda completou a serventia da caapeba:

- Quando o caso é furúnculo, o cabra soca as folhas num pilão, enrola num pano branco e dispõe esse embrulho por riba de uma água fervente, só pra pegar a quentura do vapor. Quando fica morno, aplica em cima do marvado, que aquilo é muito marvado, pois dói sem base! Se recoste que o aliveio num tarda... Quem sou eu pra contestar!

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais. Saiba mais em www.ervanariamarcosguiao.com


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