Brasil Urgente! Como chorar de dor e amor pela Amazônia

Hiram Firmino - redacao@revisaecologico.com.br
Cinema e Meio Ambiente
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

É tão bonito e faz bem a gente ver que ainda existem pessoas sensíveis, com coração e consciência política que, à parte de suas profissões e ocupações cotidianas, ainda dão vida e abraçam causas humanitárias do tamanho do mundo. E por isso nos fazem chorar, tamanha a indiferença da espécie humana pela degradação ambiental à sua volta. Mas também nos levam a sonhar, por acreditarem que ainda podemos salvar o único planeta conhecido com vida entre as estrelas do céu.

Essas pessoas existem, outras já se encantaram. Há nomes conhecidos, como Ailton Krenak, André Trigueiro, Benki Piyãko, Caetano Veloso, Carlos Minc, Darcy Ribeiro, Fernando Henrique, Frans Krajcberg, Juca de Oliveira, Lucélia Santos, Milton Nascimento, Marina Silva, Míriam Leitão, Papa Francisco, Paulo Adário, Sérgio Abranches, Thiago de Melo, Virgílio Viana, Victor Fasano e tantos outros companheiros de luta ambiental.

São essas, enfim, sob direção da atriz Christiane Torloni e de Miguel Przewodowski, as estrelas-guias do documentário “Amazônia, o Despertar da Florestania”, em cartaz na maioria dos cinemas do país.

O documentário aborda a questão ambiental brasileira desde o começo do século XX, passando pelas Diretas Já e pelo assassinato covarde de Chico Mendes (que o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ainda não sabe quem foi) até o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, considerado o maior desastre socioambiental do país.

É como rememorou o líder indígena Ailton Krenak, personagem constante no documentário, três anos e meio depois da lama de minério ter matado 19 pessoas e poluído o Rio Doce, no Espírito Santo, estado que abriga a última reserva de seus antecedentes e descendentes.

“Esta terra de meu povo, às margens do Watu, nome indígena do Doce, hoje não tem mais água para beber. Eles trocaram, de maneira muito desigual, o nosso antigo e despoluído rio por caminhão-pipa. Esse contrato que tivemos de aceitar é muito doloroso” – foi o que confirmou Krenak, logo após o lançamento do filme em BH, em debate com o público presente.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Voltando à “Amazônia”, as cenas são igualmente dolorosas, machucam. Mostram que, ao cair em série, as árvores gigantescas da maior floresta tropical do mundo não apenas fazem barulho mecânico com seus troncos batendo violentamente no solo sagrado. Elas choram, de verdade, como se fossem animais, uivando de dor. E produzem água, tipo lágrimas, que brotam na base de seus troncos, onde a motosserra faz o corte mortal e criminoso. Um dos episódios mais inacreditáveis na história ambiental brasileira remonta à época do primeiro Governo Amazonino Mendes, no Amazonas. É quando, para angariar votos ou por maldade ou ignorância mesmo, o governador faz a distribuição, gratuita e em massa, de motosserras para a população cabocla. São caminhões e mais caminhões saindo em filas, com as suas carrocerias lotadas dessas motosserras de última geração, compradas com o dinheiro público, saindo ensandecidas rumo à Grande Floresta, sob os gritos dos seus líderes: “Vão lá, gente! Cortem tudo que puder de árvores pela frente!”.

E eles, todos sabemos, cumpriram as ordens até onde foi possível. E a natureza, onde não foi poupada, deixou de existir.

“Que país é esse, o único do mundo, que esqueceu que tem nome de árvore? Que não dá conta que, em suas veias, corre seiva e não apenas sangue?”, pergunta Christiane Torloni.

É dela também, em meio à beleza divina dos igarapés que o documentário descortina, de maneira amazônica, a mensagem final do documentário: “Se todos os brasileiros, e incluindo principalmente os políticos, empresários e governantes, pudessem ter a oportunidade de conhecer a Amazônia, ela jamais seria agredida”. Pelo contrário, a indignação seria geral em sua defesa. Além de cidadania planetária, todos nós entenderíamos o subtítulo convocador do filme: “O Despertar da Florestania”, que é o outro nome da floresta e seus povos terem mais valor em pé do que burramente ceifados e assassinados.

Esse é detalhe maior do roteiro. As primeiras cenas são da Terra em azul, saindo da escuridão cósmica e focando o verde gigantesco da Amazônia. As últimas cenas são propositadamente iguais. Elas fazem a viagem cósmica de volta. E confirmam que somos habitantes de um único e minúsculo ponto azul milagrosamente existente entre o sol e a nossa insensibilidade. E ainda podemos mudar e salvá-lo, salvando-nos amazônicamente juntos, via o DNA democrático da florestania.

Torloni e Miguel Przewodowski: “Quando foi que nós esquecemos que o Brasil tem o nome de uma árvore? Que o que corre  em nossas veias não é sangue, é seiva?”. Foto: Marcelo Faustini
Torloni e Miguel Przewodowski: “Quando foi que nós esquecemos que o Brasil tem o nome de uma árvore? Que o que corre em nossas veias não é sangue, é seiva?”. Foto: Marcelo Faustini

DNA Ecológico

Segundo argumento do filme, Florestania é o DNA de uma nova identidade, que extrapola nossas próprias fronteiras! Uma identidade planetária, onde nossa “Casa Comum”, a Terra, chora por suas florestas arrasadas pela ganância no século XX, industrial e desumano. Mas o Século XXI chegou e muitos países já despertaram para a necessidade urgente de reflorestar seus campos, salvar seus rios, preservar espécies ameaçadas. E, acima de tudo, criar meios para que seus habitantes possam viver e se desenvolver de forma sustentável.


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