Estrada-parque, dentro de um parque?

Maria Dalce Ricas (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Estado de Alerta
Edição 118 - Publicado em: 31/07/2019

Propostas de reabertura da Estrada do Colono, antiga via que atravessava o Parque Nacional de Foz do Iguaçu, voltam a assombrar a Mata Atlântica, seus habitantes e quem luta por eles. “Criar uma estrada-parque dentro de um parque” é o primoroso e lamentável argumento do senador Álvaro Dias (Podemos/PR) e do deputado Vermelho (PSD/PR), já endossado pelo presidente da República. O parque, tombado pela Unesco, é um dos maiores roteiros turísticos do país e um dos mais importantes do mundo, por causa das Cataratas do Iguaçu.

Na “estrada- parque” dos parlamentares, o que os turistas veriam seria árvores e mais árvores. Por mais lindas que sejam, não se constituem em atração. E mesmo que o fossem não justificaria. Trata-se de uma situação na qual se aplica 100% o princípio de que há locais em que o valor ambiental vale muito mais do que qualquer atividade humana. “A restrição imposta aos municípios lindeiros à estrada mostra-se diminuta frente à importância do Parque Nacional do Iguaçu e à necessidade de manutenção da sua integridade e da função ecológica que representa”, disse a juíza federal Pepita Durski Tramontini Mazin na sentença que, em outubro de 2007, exigiu cumprimento da liminar que decretava o fechamento da estrada, concedida em setembro de 1986 e mantida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em vigor até hoje.

O Parque Nacional do Iguaçu foi criado em 1939 por Getúlio Vargas. Em 1953, empresas “colonizadoras” da região invadiram o parque e abriram uma picada que passou a ser chamada de “Estrada do Colono”. Caça, pesca, queimadas, desmatamento e atropelamento de animais fazem parte dos relatos do tempo em que permaneceu aberta. Em maio de 2012, o Departamento da Polícia Federal no Paraná, em ofício endereçado ao Ministério do Meio Ambiente, reconheceu ser “inegável que, no período de funcionamento da estrada, a via era largamente utilizada por criminosos como caminho para transportar mercadorias ilícitas, armas, munições e drogas, além de facilitar a prática de crimes ambientais”. Ainda segundo o documento, isso acontecia “porque os criminosos evitavam transitar pela BR-277, rodovia com vários postos da Polícia Rodoviária e da Receita Federal”.

PARNA FOZ DO IGUAÇU: cartão postal mundial novamente ameaçado por uma estrada antiecológica. Foto: SF BRI
PARNA FOZ DO IGUAÇU: cartão postal mundial novamente ameaçado por uma estrada antiecológica. Foto: SF BRI

Visualmente a estrada não existe mais, pois a regeneração da floresta é avançada. Se a proposta for aprovada, resultará no desmatamento de faixa de seis metros de largura no percurso de 18 km, causando impactos gigantescos. De imediato, a derrubada de milhares de árvores, movimentação de máquinas, barulhos e lixo. Depois, afugentamento e atropelamento da fauna, caça, captura e tráfico de animais, incêndios, roubo de plantas e desequilíbrios ambientais da maior gravidade.

“Um dos maiores problemas que essa estrada pode gerar é a contaminação da vegetação nativa por espécies invasoras. As sementes delas serão levadas com maior facilidade ao interior do parque pelos carros que circularão na rodovia e a probabilidade de incêndio vai aumentar, já que acidentes podem acontecer no trajeto. Além disso, caçadores devem intensificar o extermínio de animais dispersores de sementes como paca, cotia, porcos do mato e anta. Isso causará danos irreversíveis à vegetação, porque as sementes das árvores dependem dessas espécies para serem dispersadas. O resultado disso será o empobrecimento da vegetação que compõe a Mata Atlântica.” O depoimento é de Fernando Fernandez, biólogo que estuda a fragmentação dos remanescentes florestais, mestre em Ecologia e PhD na área pela Universidade de Durham, na Inglaterra.

O Parna Foz do Iguaçu, com 170.000 ha une-se ao parque argentino, com 55.000 ha, perfazendo total de 225.000 ha de área protegida. Ao lado do Vale da Ribeira (SP), é o maior abrigo da onça pintada, seriamente ameaçada de extinção no bioma Mata Atlântica, devido à sua fragmentação. A visão do alto mostra o parque completamente cercado por monoculturas, fator que determina ainda mais a importância de manter sua integridade geográfica. Em abril, a Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados aprovou o PL 984/2019 que aguarda designação de relator na Comissão de Meio Ambiente.

No link a seguir, nós brasileiros podemos dizer aos senadores se concordamos ou não em mutilar o Parque Nacional de Foz do Iguaçu, patrimônio mundial pela Unesco: bit.ly/2y4yU2g . Que possamos, sempre, escolher a natureza em primeiro lugar.

(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente


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