Dente-de-leão

Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 119 - Publicado em: 18/09/2019

Assim que adentrei a cozinha, minhas narinas foram tomadas de assalto pelo cheiro macio do angu de milho verde que tava no ponto de ser despejado na travessa. Dona Lindaura cantarolava baixinho ao lado do fogão a lenha e, me vendo chegar, foi logo dando sinal:

– A fome tá apertano, né mermo? O cumê num tarda tá pronto, gasta só faze uma salasica que vou colher ali no quintal. Foi falando e escorregando pela porta da cozinha pra ganhar um mundo de quintal, todo cercado de tela “previnemento das galinha” criadas na larga. Em minutos, ela retorna com um maço de folhas repicadas enfeitadas por uma flor amarela no meio.

Mirando minha cara de espanto, ela inquiriu: –Conhece isso não? Diante da negativa, completou: – Isso é Dendeleão, remédio que agora tá virano verdura..., continuou sua cantinela, enquanto lavava e picava numa bacia aquele monte de folhas muito verdes e recortadas. Em seguida, espremeu um limão por cima, despejou uma pitada de sal e correu um fio de azeite. Tava pronta a salada que foi logo fazer companhia pra outras tantas iguarias.

Foto: Marcos Guião
Foto: Marcos Guião

Chico da Mata chegou pra também almoçar e deu reparo na salada de dente-de-leão (Taraxacum officinale) e foi logo dizendo: – Hoje ninguém vai sair da mesa recramando de malestar. Isso é um remedão, desembaraça quarque mazela do fígado, inté mesmo aquele amarelão da hepatite. Mas tamém dá uma mijação sem base, o vivente verte a urina sem dó. Enquanto ele discorria sobre as aplicações do dente-de-leão, fui experimentando na desconfiança a salada, mas me dei bem com a coisa. Aquilo tava era muito bão.

– Pois óia que esse povo que tem sangue pobre se aporveita muito dele, pois isso tamém limpa e fortalece o sangue, no principalmente daquelas doninhas que sofrem de anemia derivada de muito sangramento na virada da lua. Já aquelas que tão na dificulidade de aleitar sua cria, essas foias dão força de formá leite inté o cabra chutá o balde... Essa história se deu há muitos anos, mas até hoje me recordo desse primeiro contato com o dente-de-leão, e até hoje tenho ele como uma das plantas medicinais que mais admiro.

Plantinha danada de simples, é encontrada nas beiradas de hortas, em lugares úmidos e ricos em matéria orgânica. Além dessa tanteira de aplicabilidade, o pompom arredondado que se forma depois da floração é simplesmente encantador e faz a festa das crianças que sopram ao vento as sementes disfarçadas de minúsculos paraquedas, levando adiante a multiplicação dessa planta maravilhosa.

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais. Saiba mais em www.ervanariamarcosguiao.com


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