Redução de velocidade dos navios pode salvar baleias e golfinhos

Conservacionistas defendem proposta para embarcações comerciais de grande porte, que será discutida em nível mundial

Meio Ambiente
Publicado em: 29/10/2018

Ao lado da poluição e da caça predatória, uma das principais ameaças às populações de baleias e golfinhos nos oceanos é o transporte marítimo comercial. Muitas vezes, o caminho dos grandes navios cruza com o desses animais, com resultados fatais para esses últimos.

Mas os danos causados pelas rotas comerciais cada vez mais congestionadas não se limitam apenas aos atropelamentos: a poluição sonora subaquática causada por essas embarcações também impacta a qualidade de vida dessas espécies, que são altamente dependentes do som para se comunicar, socializar e localizar presas.

Por essa razão, um grupo de organizações da sociedade civil internacional e de especialistas encaminhou à Organização Marítima Internacional (OMI) uma carta, apoiando esforços recentes para estabelecer limites à velocidade de embarcações de grande porte, como porta-contentores, cargueiros e navios-tanque.

A proposta será discutida no encontro da OMI, em Londres, e servirá para definir as medidas que o setor de transporte comercial marítimo tomará nas próximas décadas. O foco é a redução de suas emissões de gases de efeito estufa, integrando a luta global para conter a elevação da temperatura média terrestre em 1,5 grau, em relação aos níveis pré-industriais.

A equação é simples: reduzir a velocidade também diminui a poluição dos navios, que é uma das causas do aquecimento global. O engajamento do segmento de transporte marítimo é tido como estratégico para viabilizar as metas climáticas das Nações Unidas.

Em 2015, último ano com dados contabilizados pela OMI, o transporte marítimo internacional liberou mais de 810 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), principal gás de efeito estufa, na atmosfera terrestre. Isso representou 2,25% de todas as emissões decorrentes de atividades humanas naquele ano. Se esse setor fosse um país, suas emissões de CO2 o posicionariam na 6ª colocação entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, comparável à Alemanha.

Estresse animal

A proposta de reduzir a velocidade máxima (também conhecida como slow steaming) é defendida por grupos conservacionistas e ambientalistas. E não só porque ela pode reduzir o número de colisões de grandes navios com baleias e golfinhos, mas sobretudo porque diminui a poluição sonora subaquática.

"A poluição sonora gerada pelos navios nos oceanos eleva os níveis de hormônios relacionados ao estresse nas baleias, o que pode impactar sua capacidade de se reproduzir e ainda afetar seus sistemas imunológicos", explica Regina Asmutis-Silvia, diretora da Whale and Dolphin Conservation.

Na carta encaminhada à OMI, as organizações que defendem a proposta de limitar a velocidade máxima de embarcações ressaltam que os países precisam analisar a medida e definir um cronograma para a realização de um estudo de impacto, antes de decidir por sua adoção.

Cerca de 30% da frota mundial é formada por grandes navios que transportam contêineres, grãos, petróleo e gás liquefeito, além de cruzeiros e cargueiros. No entanto, eles são responsáveis por 75% das emissões de carbono de todo o setor de transporte marítimo.

Estudos apontam que o slow steaming dessas embarcações poderia cortar em 1/3 as emissões de carbono do setor, já que a queima de combustível é reduzida na medida em que a velocidade dos navios diminui. Essa redução é equivalente ao fechamento de 82 usinas termelétricas a carvão, um dos tipos mais poluentes de unidade geradora de eletricidade.